A imaginação
Por Salvatore Canals
“A nossa pedagogia compõe-se de
afirmações, não de negações, e reduz-se a duas coisas: agir com senso
comum e com senso sobrenatural”. São Josemaría Escrivá
Nenhuma pessoa prudente escolheria um
doido como conselheiro para os problemas mais delicados da sua vida.
Todos nós qualificaríamos de imprudente e pouco sensato quem se
comportasse desse modo.
Esta verdade, tão clara e evidente na
vida e nos negócios, não o é tanto, pelo menos na prática, na vida
interior e no problema da nossa santificação. A imaginação é uma doida –
a doida da casa, como a qualificava Santa Teresa, com o seu habitual
bom-humor – e, no entanto, a escolhemos, mais ou menos
inconscientemente, para conselheira dos problemas mais delicados da
nossa alma.
Esta doida que nos distrai com o seu alarido e nos
dissipa com a sua agitação; que nos comunica os seus temores e nos
perturba com as suas apreensões, que nos sussurra ao ouvido suspeitas
infundadas, que nos tiraniza com as suas ambições e nos morde com a sua
inveja; esta doida que nos faz abandonar a realidade com sonhos
fantasiosos, cheios de euforia ou de pessimismo, e que instala em nós,
suavemente, o veneno da sensualidade e do amor-próprio; esta doida –
sabemo-lo por experiência – é a grande inimiga da nossa vida interior, é
a eterna aliada do mundo, do demônio e da carne.
É ela que
perturba a tua vida de oração, que te faz temer a mortificação; é ela
que introduz na tua alma a tentação da carne e da soberba, que falseia o
teu conhecimento de Deus e te priva do sentido sobrenatural; é ela que
te embala no sonho da frivolidade ou te submerge no letargio da tibieza; é
ela que extingue o fogo da caridade ou acende o da desconfiança e da
discórdia.
Doida, como um cavalo fogoso;
inquieta, como uma borboleta. Se não a dominas e orientas, nunca serás
alma interior e sobrenatural. Se não a dominas, nunca poderás fruir
daquela calma serena que é tão necessária para servir a Deus. Se não a
refreias, nunca alcançarás aquele realismo que é uma exigência da vida
de santidade.
Calma, realismo, serenidade, objetividade: virtudes
que nascem onde termina a tirania da imaginação; virtudes que crescem e
se fortificam no esforço ascético por dominar e controlar a fantasia.
Dizia-te que é grande a tirania da imaginação. Tão grande que chega a
alterar as ideias, a falsear as situações da vida, a deformar as
pessoas.
O Evangelho oferece-nos uma prova muito eloquente desta
tirania. O lago de Genesaré: uma escura noite de tempestade; os
Apóstolos têm de remar com a máxima energia, lutando contra um vento
forte em sentido contrário. A pequena barca, sacudida pelas ondas,
abriga doze homens que se esforçam desesperadamente por resistir à força
impetuosa do vento. Jesus retirou-se a um monte vizinho para orar. Na
quarta vigília da noite, aproxima-se dos Apóstolos caminhando sobre as
águas. E os doze... vendo Jesus, que caminhava sobre as águas, perturbam-se e exclamam: é um fantasma!
Vê: a adorável figura do Mestre, que se aproxima para ficar com eles,
para os ajudar, para acalmar a tempestade impondo silêncio às ondas com a
sua palavra imperiosa, assume naquelas imaginações o aspecto de um
fantasma, que lhes mete medo e os perturba.
Quantas vezes este
episódio evangélico se repete em nossas vidas! Em quantas ocasiões a
nossa alma, vítima da imaginação, se enche de temor e fica perturbada!
Brincadeiras da fantasia, fantasmas da imaginação, essas são as cruzes
imaginárias que freqüentemente nos atormentam, oprimindo-nos com o seu
peso. Não exagero se te digo que noventa por cento dos nossos
sofrimentos, desses sofrimentos que, com pouco conhecimento da Cruz de
Cristo, qualificamos como cruzes, são imaginários, pelo menos aumentados
e deformados pela cruel tirania da nossa imaginação. É por isso que nos
pesam e nos enfraquecem tanto as nossas cruzes humanas e inventadas.
Se tudo o que nos faz sofrer tanto e nos oprime tão violentamente fosse
verdadeiramente a cruz que o Senhor nos manda, a Cruz de Jesus, uma vez
que a tivéssemos reconhecido como tal e com fé e amor a tivéssemos
aceito, não deveria pesar-nos nem oprimir-nos mais. Porque a Cruz de
Jesus, a Santa Cruz, não é fonte de tristeza ou de abatimento, mas de
paz e de alegria.
Mas se, pelo contrário, carregamos sobre os
ombros uma cruz humana e imaginária, uma cruz produzida pela nossa
revolta interior contra a verdadeira Cruz, então devemos estar tristes e
preocupados. Este peso e esta preocupação podem desaparecer da tua
vida, podem deixar de oprimir-te: basta que abras os olhos da fé e que
te decidas a cortar as asas à tua imaginação.
Deixa-me que te
diga que estas cruzes humanas que te acabrunham com o seu peso não
existem na grande realidade da tua vida sobrenatural: existem apenas na
tua imaginação. Carregas sobre os ombros um peso tão atroz quão
ridículo: um peso que na tua imaginação é uma montanha e na realidade é
um grão de areia.
São fantasmas forjados na tua cabeça, fantasmas
que a fantasia reveste de cores vivas, atribuindo-lhes mãos largas e
temerosas e pernas ágeis e velozes. São fantasmas que agora te
perseguem, enchendo de dor e de agitação a tua alma. Um pequeno gesto da
tua vida de fé seria suficiente para os fazer desaparecer. Percebes que
basta pouco para os eliminar?
Mas, às vezes, admitimos na nossa
vida outros fantasmas que vêm de longe: são os temores de males futuros.
São temores de coisas ou perigos que hoje não existem e que não sabemos
se se verificarão, mas que vemos presentes e atuais na nossa
imaginação, convertendo-os em tragédia. Um simples raciocínio
sobrenatural seria suficiente para os varrer: se esses perigos não são
atuais e esses temores ainda não se verificaram, é óbvio que não dispões
da graça de Deus necessária para os vencer e aceitar. Se esses receios
vierem a cumprir-se, então não te faltará a graça divina e, com ela e
com a tua correspondência, a vitória, a paz. É natural que não tenhas
agora a graça de Deus para venceres os obstáculos e aceitares as cruzes
que existem apenas na tua imaginação. É preciso construir a vida
espiritual com base num realismo sereno e objetivo.
Os fantasmas
não são menos perigosos no campo da caridade. Quantas vezes és vítima da
imaginação no exercício desta virtude! Quantas suspeitas sem
fundamento, radicadas apenas na tua cabeça! Quantas coisas fazes pensar e
dizer ao teu próximo, quando ninguém pensou, nem disse, nem fez nada!
Estes fantasmas perturbam e minam a vida de relação, a vida de família.
Os pequenos contrastes, que se dão necessariamente em todos os círculos
de convivência humana, mesmo entre santos – porque não somos anjos –,
agigantam-se e deformam-se em consequência da imaginação, e criam
estados de ânimo duradouros que nos fazem sofrer muitíssimo. Por
coisinhas de nada, por ninharias e pelo jogo da fantasia, cavam-se
abismos que dividem as pessoas, que destroem afetos e amizades, porque
vão corrompendo a unidade.
A imaginação é ainda a grande aliada
da sensualidade e do amor-próprio. Quantos romances te faz viver! Sonhos
fantásticos em que és o herói, a personagem que triunfa: fantasmas que
afagam a tua ambição, o teu desejo de mandar e de ser admirado, a tua
vaidade.
Vê quantos obstáculos para a tua santidade. A tua vida
de piedade – a oração, a presença de Deus, o abandono nas mãos do
Senhor, a alegria forte e sobrenatural –, as muralhas da tua vida
interior ameaçadas, minadas pela doida da casa.
Que sejas sobrenatural, objetivo. A voz de Jesus põe termo aos temores e à aventura dos doze no lago de Genesaré: Tende confiança. Sou Eu. Não temais.
Tradução:
Quadrante
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